5:36
Não é um traço constitutivo comum da adolescência a coerência e o concatenamento lógico entre desejo e conduta — mas, afinal, de quem é?
Havia estabelecido uma rígida rotina que começava na noite anterior de cada dia em que havia aula. Essa rígida rotina tinha como razão de ser um motivo simples, fisiológico e social: dormir o máximo de tempo possível, ainda que em contradição com outras atividades voluntárias. Vê-se que, em uma fase tão sujeita a estímulos e alterações corporais e hormonais, nada surpreende o fato de o adolescente buscar maximizar o seu tempo de sono, ao mesmo tempo em que, constantemente, toma atitudes que o privam de valiosas horas de repouso (como, em lista não exaustiva: ficar conversando no MSN durante a madrugada; ficar assistindo filme na sala quando todo mundo foi dormir; se trancar no banheiro para responder às necessidades hormonais mais afloradas; ficar jogando on-line com os amigos; ficar morgando quando poderia estar dormindo, etc etc etc, enfim, esse sem fim de coisas que o adolescente desse tempo em específico, no qual essa história se desenrola, pode usar para ocupar o próprio tempo até o momento em que, tão tarde que é, já não sabe mais se vale a pena tentar dormir e tirar algum proveito de uma ou duas horas ou, então, permanecer acordado de uma vez). Não é um traço constitutivo comum da adolescência a coerência e o concatenamento lógico entre desejo e conduta — mas, afinal, de quem é?
Retomemos a rígida rotina que começava na noite anterior de cada dia em que havia aula (e que precedia ou i. ir dormir ou ii. fazer qualquer uma das coisas já indicadas no rol não exaustivo): o banho era tomado sempre no horário noturno — cabelo lavado, partes íntimas higienizadas, o resto mais ou menos em contato com sabão; depois, escovar os dentes; depois, já vestir a calça jeans e a camiseta do uniforme da escola. Sempre dormia vestido, estava acostumado com usar calça jeans enquanto pijama. Mas não é desconfortável?, perguntavam quando ele contava sua estratégia, e ele respondia que não, não era, já estava acostumado. A camiseta amanhecia inteira amarrotada, mas, de novo, quem é que espera que um adolescente, destituído de coerência e de concatenamento lógico entre desejo e conduta, reputado até mesmo pela lei como incapaz — absoluta ou relativamente, a depender do aniversário —, apareça em perfeito alinhamento com seus trajes?
Não é uma expectativa justa, se formos falar de justiça.
De todo jeito, era assim que ele fazia. Banho tomado, dentes escovados, jeans, camiseta da escola. E meias. Sempre dormia de meias. Primeiro, porque achava mais gostoso. Segundo, porque protegia do frio, se fizesse frio. Terceiro, porque era, assim como a calça e a camiseta, um item a menos a ser vestido durante a manhã. Só não dormia de tênis, porque aí, nesse caso, realmente não tinha como se acostumar com o desconforto. E, ainda mais importante, a mãe lhe daria um cacete caso ficasse de tênis na cama. Eis o poder limitativo da incoerência da juventude.
Semipronto, como um miojo ou um hot pocket ou um pré-moldado, acionava o despertador para o dia seguinte: 5:16.
Não se tratava de um horário arbitrário. 5:16 era fruto do método científico mais antigo que se tem conhecimento: tentativa e erro. 5:16 era o horário ideal, com tempo suficiente para se levantar, tomar leite morno com nescau (sem comer nada além disso, pois uma vez teve disenteria e precisou esvaziar o estômago no banheiro da escola e estava certo de que o culpado era o pão com manteiga), escovar os dentes, calçar os tênis e sair pelo portão em direção ao ponto de ônibus.
Cada minuto contava.
E às 5 horas e 16 minutos da manhã, o despertador tocava e a contagem regressiva era iniciada.
Porque, não importando o que ocorresse, em 20 minutos ele precisaria estar no ponto onde o fretado passava para levá-lo até a cidade vizinha, onde ele estudava.
5:36.
Todos os dias, de segunda a sexta (com exceção de feriados e férias escolares).
5:36 era o horário a partir do qual todos os outros se orientavam — o horário que definia a hora ideal para se dormir (desnecessário que retomemos todo o aparte sobre a inobservância desse horário pelo adolescente, pelo que se espera que o leitor possa fazê-lo por si só), o horário que definia a hora ideal do despertador do celular tocar (5:16), o horário que definia a hora ideal para sair pelo portão (5:29, pois a caminhada até o ponto de ônibus era de 7 minutos no seu ritmo tradicional, necessária para percorrer os 580 metros de distância, e, em seu melhor tempo, em esbaforida corrida movida pelo desespero e pelo atraso, forças poderosas na performance humana, chegou a fazer o percurso em pouco menos de dois minutos, ainda que às custas da camiseta do uniforme, que ficou todo suado).
5:36, não importando o que ocorresse, o ônibus parava no ponto. Se ele não estivesse lá, o ônibus iria embora. Todos os dias, de segunda a sexta (com exceção etc). Era assombroso, até. O motorista era um senhor de considerável barriga, que ficava marcada na camisa branca enfiada para dentro da calça azul escuro, uniforme da empresa de fretado, que só tinha cabelo nos arredores da cabeça, com o cocuruto já vazio há muito tempo, e a barba sempre feita. Seu vocabulário profissional era restrito ao mínimo necessário: Dia (na ida), Tarde (na volta), Nada (como resposta ao agradecimento de Obrigado, Motor dos alunos).
Na tentativa e erro e também nos casos fortuitos e de força maior, o adolescente mais de uma vez precisou sair correndo de casa só para, ao chegar no ponto com o relógio já passado das 5:36 exatas, assistir a traseira do ônibus se afastar pela rua. Amaldiçoava a si mesmo, não ao motorista, porque sabia a regra desse jogo.
A rotina foi cuidadosamente aperfeiçoada ao longo do tempo, sempre tendo como ponto fixo às 5 horas e 36 minutos da manhã, inabalável, inalterável.
Assim foi ao longo de dois anos e sete meses. E então — lembra bem, era uma terça-feira e estava frio e ele mantinha as mãos para dentro dos bolsos do moletom com um cheiro insuperável de suor juvenil — aconteceu.
5:36. E o ônibus não virou a esquina para chegar no ponto.
5:37. E o ônibus não virou a esquina para chegar no ponto.
5:38. E o ônibus não virou a esquina para chegar no ponto.
5:39. E o ônibus virou a esquina. Olhou para o motorista e não reconheceu o homem que dirigia o ônibus. Seu coração acelerou e sentiu a pulsação forte na carótida. Um vazio imediato no estômago. Deslocamento de si, de tudo.
O ônibus parou e abriu a porta. Ele subiu os degraus. Bom dia. O motorista respondeu: Bom dia, jovem.
Não queria perguntar. Mas precisava: e o seu Arlindo?
Não queria ouvir a resposta. Mas ouviu e, ainda esvaziado e faltante, ficou aliviado.
Aposentou, ontem foi o último dia dele.
Nossa, não sabia.
É, Arlindão é assim mesmo.
Seguiu pelo corredor, sentou no assento de sempre e, naquela manhã de terça-feira, não dormiu.
Até o fim do ano escolar — o seu último na escola, o seu último pegando aquele fretado —, vez ou outra o ônibus chegava às 5:36. Às vezes, 5:35 e esperava dar 5:36. Às vezes, 5:37, 38, 39, até 40.
O mundo estava, de novo, desprovido de toda constância. 5:36 era, mas podia não ser.



